22 Fevereiro, 2012

AQUELA MULHER



Com fone de ouvidos no volume máximo, mochila nas costas, uma cédula de dois reais e mais três moedas, eu subi naquele ônibus velho e estranho, o qual eu jamais havia necessitado pegar. Seu percurso era bem extenso e sinistro, mas minha parada era antes de sua metade. Aliás,  nunca tive a oportunidade de conhecer seu ponto final. Dizem que é um dos lugares mais estranhos do mundo. Devem ter razão, já que só de olhar para o veículo, já dá aquele arrepio na espinha...

Ao passar a catraca, tive vertigens. Me senti como um personagem de filme de terror. Todos me olhavam com um olhar intimidador e o  menos estranho ali era eu. As pessoas exalavam um cheiro estranho e alguns faziam caretas e esboçavam fisionomias muito estranhas ao me ver. Sinceramente, só peguei aquele ônibus, pois o meu ponto de chegada era demasiado longínquo para ser percorrido a pé. Mas, preferia caminhas toda aquela distância a ter de enfrentar aquelas caretas bizarras.

De repente, surgiu um lugar em um assento próximo a mim. Sentei-me timidamente e resolvi olhar somente para a janela para a sensação de terror passar. Alguns segundos depois, a sensação não era de medo ou terror, e sim, de inércia. Além de não ouvir nem as batidas do meu próprio coração, eu não sentia meu corpo. A única coisa que sentia, era que já estava a quilômetros de distância de minha casa, e parecia que o sol já estava indo embora, de tão escuro que o interior do ônibus começou a ficar.

Já com a vista cansada de tanto olhar para aquela estrada cinza passar em forma de borrão ao meu lado, desviei o olhar para o corredor, e surpreendentemente, vislumbrei a figura de uma mulher, digo... de  uma senhora, que já ostentava suas rugas e marcas de expressão, vestia um vestido simples e usava colônia cítrica daquelas baratas... Ela era diferente de todo o restantes de "humanos" que estavam entre nós... O motivo, eu não sei. Só sei que morri de vontade de puxar conversa com ela, ou ao menos pedir para segurar suas sacolas, mas me contive e pus-me a contemplá-la novamente.

Seu olhar denunciava cansaço. Abaixei meus olhos até sua mão e vi uma aliança já sem brilho. Ela era casada. Talvez por décadas. e tinha cara de ser daquelas mulheres que cozinhava religiosamente todos os dias para a sua família. E o fazia com prazer. Típica dona-de-casa sem graça, mas que me despertava tanto interesse em iniciar um diálogo... É claro que sem malícias ou quaisquer pretensões... Acho que só de saber o nome dela, para mim, já bastaria. Me sentia como se eu dependesse ouvir alguma palavra sua para continuar respirando dentro daquele veículo que nunca chegava à minha parada.

Tive ímpetos de levantar e ceder o meu lugar a ela. Eu era muito mais jovem e poderia muito bem, ficar em pé até o meu destino chegar, mas algo mais forte que eu me impedia de mover um músculo sequer... Enfim, desisti de falar e olhei novamente para o exterior do ônibus e percebi que minha parada já estava próxima. Levantei e na hora de me dirigir ao fim do veículo, senti meu corpo atravessar o dela, como se ela fosse um espírito. Seria ela humana? Ou seria ela apenas uma miragem? Assustado, esfreguei meus olhos e olhei para trás novamente e... ela já estava sentada em meu lugar.

Desci do ônibus com a sensação de ter renascido, mas ao mesmo tempo, fiquei arrependido de não ter puxado conversa com aquela senhora com quem simpatizei-me e interessei-me tanto, mas decidi esquecer aquela viagem estranha e segui caminhando rumo às minhas tarefas ali naquele local. Após tê-las cumprido, retornei à mesma parada para pegar o mesmo ônibus, só que para voltar para casa. Quando cheguei ao ponto, tive uma surpresa... 

Aquela mulher que tanto me chamara a atenção também esperava um ônibus! Fiquei atônito e comecei a suar de medo. Como ela poderia estar ali, sendo que eu tinha certeza de que SÓ eu havia descido do ônibus? Afinal, por que essa mulher havia me despertado a vontade de querer conhecê-la e , afinal, o que ela estava fazendo ali naquele ponto? Como ela descera ali?... Aquilo era impossível!

Por precaução, decidi ficar a alguns metros de distância e o ônibus demorou uns 20 minutos para chegar... Esses 20 minutos foram os mais aterrorizantes da minha vida... Eu ainda não conseguira responder às perguntas do parágrafo anterior... A minha mente se resumia à terror e interrogações... E durante este tempo, nós permanecemos calados. Os únicos ruídos que ouvíramos foi o uivo dos ventos e o ronco do ônibus se aproximando. 

Eu a deixei subir no ônibus primeiro, mas ela, educadamente acenou-me, para eu subir primeiro. Ao pagar o motorista, passei a catraca e acordei deste sonho - talvez o mais - estranho que já tive. Eu nunca dei importância a sonhos, nem jamais percebi quaisquer ligações deles com a  realidade, mas sinto que aquela mulher tinha algum recado para me dar, que ela é real e pressinto que ainda vou encontrá-la...

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*Obra de ficção

21 Fevereiro, 2012

A MELHOR COISA QUE EU NUNCA TIVE.



Parti. Sem dó. E nem olhei para trás. Abandonei. Desisti de você. Pra sempre. E dou graças a Deus por isso. As verdades que você inventara, eu já consegui esquecer. As idealizações e planos que havíamos feio, eu me encarreguei de enterrá-los na inexistência. Talvez você ainda permanecerá em algum espaço remoto da minha mente, mas ficará totalmente só e inutilizado, sem direito a lembranças que não me tomem mais do que segundos. Você se tornou um borrão, uma miragem... Uma personagem de um dos milhares de pesadelos que tenho, mas que eu consegui me desvencilhar com o despertar. Despertei. Agora, preciso continuar a caminhar e voltar a minha atenção somente a pessoas boas e que tenham a mente saudável e não-fantasiosa, para não dizer psicopata. A partir de hoje, te considero como uma ideia perdida, um pertence esquecido em algum lugar do mundo, aquela moedinha sem valor que caiu do meu bolso enquanto eu caminhava, a melhor coisa que eu nunca tive. Adeus.

"'Cause, honestly, you turned out to be the best thing I never had..."

Best Thing I Never Had - Beyoncé


14 Fevereiro, 2012

A HISTÓRIA DAS COISAS (VÍDEO)





Dia desses, assisti esse vídeo em uma aula de biologia e achei que mais pessoas precisavam vê-lo.   O vídeo mostra de uma forma bem simples, tudo o que eu penso sobre a alarmante situação atual da natureza, que por sinal, foi provocada pelo capitalismo. Vale a pena vocês verem, e quem gostar, por favor, ajude a divulgar este vídeo para o máximo possível de pessoas.


11 Fevereiro, 2012

BRASIL - UM PAÍS DE POUCOS



Como se não bastasse a TV brasileira, a falta de cortesia e educação da população, ainda temos que nos adaptar, e ainda fingir que os demais problemas e absurdos com os quais convivemos não existem.  Corrupção, má educação alheia, descaso com o meio-ambiente, pobreza em excesso e outros mil e um problemas que coexistem no nosso espaço, que alteram a vida de todos, mas não desperta senso de revolta. Mas... O que faz os brasileiros não terem iniciativa de resolverem ou amenizarem seus problemas?

Acho que os 190 milhões de habitantes do nosso país têm sim condições de agirem em conjunto para sanar os problemas que nos cercam, mas falta inteligência, vontade e ânimo pra isso. Muitos estão cansados e acomodados demais para se preocuparem em exercer sua cidadania. E os que ainda têm fôlego, se veem sozinhos nesse campo de batalha, têm poucos aliados, não conseguem resultados expressivos e logo desistem de lutar por um país melhor. Há também aqueles que enxergam tudo isso, mas pouco se importam com a situação do seu país, e só dão importância a si próprio, como se fossem imunes ao país inteiro.

População acomodada, cansada e cega, políticos corruptos, aproveitadores e omissos (não necessariamente nesta ordem). Combinação perfeita para a desordem de um país. O que se vê nos discursos presidenciais, o que se vê e ouve na televisão e nas rádios a respeito da melhora do país é pura fachada. Ouve-se muito falar de crescimento, mas ouve-se pouco falar de EVOLUÇÃO. Brasileiros não precisam de vale-gás, auxílio-absorvente, auxílio-mortadela-pro-seu-pão... O que os brasileiros precisam é de medidas sócio-educativas que sejam capazes de mudar a mentalidade, e quem sabe, a atitude das pessoas. Se é que isso é possível. Eu acredito na humanidade e no poder do ser humano. Isso é possível a partir do momento em que um indivíduo transforma a palavra "querer" em "fazer".


Outro absurdo que vejo são escolas de ensino fundamental e médio jogadas ao vento e à sorte, enquanto as universidades públicas/estaduais/federais são voltadas somente para as mentes brilhantes e mais evoluidinhas... Mas e as mentes-mais-ou-menos que também querem fazer faculdade? Ah, essas não têm chances! Se quiserem fazer faculdade, só se for daquelas ralés, que a mensalidade é R$400,00. Aí arrumam um emprego de R$800,00 e lá se vai a metade do salário. É claro que isso vem mudando... O Governo criou mil projetos sociais para que isso mudasse. Está mudando, de fato, mas e os investimentos na educação básica? Cadê? Cadê os professores que são capazes de ministrarem aulas de qualidade? Mas, por outro lado, cadê aqueles alunos que TÊM perspectiva de vida e que QUEREM formar-se em nível superior? Ambos estão em falta. Por que? Olha, sinceramente, eu não sei da mais nada!


Não sei se o problema do Brasil está só nos políticos - que TAMBÉM fazem parte da população, mas se esquecem disso -,  se está na repetição de atitudes retrógradas, se está em todos nós, até mesmo nos que estão fazendo alguma coisa pra mudar isso ou se o problema do nosso país foi ser descoberto. Será que o circo que se fundou aqui é proveniente do desembarque dos portugueses em 1500? Acho que tudo isso contribuiu pra situação atual. Também não dá pra monopolizar essa culpa. Cansei de tentar enxergar a raiz desse problema. Agora só lamento... Coitado do meu país: não pediu pra ser descoberto, mas já nasceu gigante pela própria natureza, teve 190 milhões de filhos que só arrumaram e ainda arrumam encrencas e só sabem é sujar o seu nome... 


Talvez um dia isso mude, talvez não. Isso pouco importa, pois o que o povo realmente quer saber é quando algum artista internacional desembarca aqui para mais uma temporada de shows, afinal é de entretenimento que o Brasil vive, né? Ah, mas enquanto isso, vamos bradar aos quatro ventos o slogan muito engraçado sincero que o Estado promoveu: "Brasil - Um País de Todos"... 


Será mesmo que é um país de todos? Está mais para um país de poucos, isso sim.

06 Fevereiro, 2012

CORTESIA EM CRISE





Logo na infância, antes mesmo das primeiras palavras, fui ensinado a ser gentil e educado, com todas as pessoas que eu encontrasse e que necessitasse de ajuda ao longo da vida, independentemente da classe social ou situação financeira das pessoas em questão. Eu cresci seguindo à risca esse tipo de "comportamento exemplar". Sigo respeitando as pessoas, mesmo sem sorrir pra todo mundo. Gentileza não é bom-humor. Educação não é sorrir pra todo mundo. "Bom-dia" não é falsidade. Mas parece que essas coisas se tornaram pejorativas de uns tempos pra cá.

Atualmente a situação está completamente diferente de uns anos atrás. Uns dias atrás, fui ao mercado comprar somente um guaraná. Ao escolher o caixa, entrei em um que a fila parecia ser menor. Só havia uma mulher, mas sua compra era pro ano inteiro. A mulher olhou para mim e para o meu guaraná e simplesmente fingiu que não havia ninguém atrás dela. Começou a passar seus itens rapidamente, para não me dar chances de pedir para passar na frente. Deixei o egoísmo dela pra lá e fingi que ela também não estava ali. Esperei a minha vez pacientemente, como se não houvesse o amanhã. Poxa... As pessoas já foram um pouco mais corteses... Ah, como eram belos os dias em que a pessoa-que-compra-a-metade-do-mercado deixava o menino-que-só-foi-comprar-um-guaraná passar na sua frente.

Outro fato que observei, é que a minha mãe é sempre muito gentil no trânsito. Mesmo quando o farol está verde para ela, dependendo da velocidade em que está, ela para e deixa algum pedestre que estiver aguardando a travessia passar... Há pouco tempo atrás, ela fazia isso e recebia um "obrigado" acompanhado de um sorriso dos pedestres, e depois, seguia. Hoje, não. Além dos pedestres acharem que ela não es´ta fazendo mais do que sua obrigação, os motoristas dos carros atrás ficam buzinando como se minha mãe estivesse tumultuando o trânsito. Tá vendo só a diferença? Hoje ser gentil no trânsito virou sinônimo de tumulto e desordem. 

A gentileza e educação tornaram-se obsoletas. Quem é bondoso é antiquado. Quase crucificado. É claro que não podemos esperar que TODAS as pessoas que encontramos por aí nos sirvam com sorrisos. Não, não é isso. Não precisa sorrir para ser gentil, assim como não precisa cumprimentar os outros para ser educado. Mas acho que a questão da gentileza, é um ato que deve ser praticado, em consideração a nós mesmos. Antes de agir, as pessoas deveriam se colocar no lugar da outra que vai "receber" a sua ação. É clichê sim, mas se as pessoas seguissem clichês como esse, certamente o mundo do qual elas mesmas vivem reclamando, seria bem melhor e mais agradável de se viver.

Acho que muitos têm confundido "capitalismo" com "individualismo". Acho que de tanto conviverem com seus bichos de estimação, muitos têm adquirido o mesmo tipo de raciocínio primitivo de seus bichos. Será que pedir mais altruísmo, gentileza e paciência é pedir muito? Acho que não. Enfim, não acho que sou melhor por ainda praticar a gentileza, mas certamente, sou mais feliz comigo mesmo. E só queria que mais pessoas também deveriam ser assim não somente por questão de ética e etiqueta, e sim, por questões de felicidade pessoal. A gente ajuda, mas quem fica mais feliz somos nós mesmos. Ser cortês não machuca e  nem "ranca pedaço", como diria a minha avózinha noveleira...  

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