Com fone de ouvidos no volume máximo, mochila nas costas, uma cédula de dois reais e mais três moedas, eu subi naquele ônibus velho e estranho, o qual eu jamais havia necessitado pegar. Seu percurso era bem extenso e sinistro, mas minha parada era antes de sua metade. Aliás, nunca tive a oportunidade de conhecer seu ponto final. Dizem que é um dos lugares mais estranhos do mundo. Devem ter razão, já que só de olhar para o veículo, já dá aquele arrepio na espinha...
Ao passar a catraca, tive vertigens. Me senti como um personagem de filme de terror. Todos me olhavam com um olhar intimidador e o menos estranho ali era eu. As pessoas exalavam um cheiro estranho e alguns faziam caretas e esboçavam fisionomias muito estranhas ao me ver. Sinceramente, só peguei aquele ônibus, pois o meu ponto de chegada era demasiado longínquo para ser percorrido a pé. Mas, preferia caminhas toda aquela distância a ter de enfrentar aquelas caretas bizarras.
De repente, surgiu um lugar em um assento próximo a mim. Sentei-me timidamente e resolvi olhar somente para a janela para a sensação de terror passar. Alguns segundos depois, a sensação não era de medo ou terror, e sim, de inércia. Além de não ouvir nem as batidas do meu próprio coração, eu não sentia meu corpo. A única coisa que sentia, era que já estava a quilômetros de distância de minha casa, e parecia que o sol já estava indo embora, de tão escuro que o interior do ônibus começou a ficar.
Já com a vista cansada de tanto olhar para aquela estrada cinza passar em forma de borrão ao meu lado, desviei o olhar para o corredor, e surpreendentemente, vislumbrei a figura de uma mulher, digo... de uma senhora, que já ostentava suas rugas e marcas de expressão, vestia um vestido simples e usava colônia cítrica daquelas baratas... Ela era diferente de todo o restantes de "humanos" que estavam entre nós... O motivo, eu não sei. Só sei que morri de vontade de puxar conversa com ela, ou ao menos pedir para segurar suas sacolas, mas me contive e pus-me a contemplá-la novamente.
Seu olhar denunciava cansaço. Abaixei meus olhos até sua mão e vi uma aliança já sem brilho. Ela era casada. Talvez por décadas. e tinha cara de ser daquelas mulheres que cozinhava religiosamente todos os dias para a sua família. E o fazia com prazer. Típica dona-de-casa sem graça, mas que me despertava tanto interesse em iniciar um diálogo... É claro que sem malícias ou quaisquer pretensões... Acho que só de saber o nome dela, para mim, já bastaria. Me sentia como se eu dependesse ouvir alguma palavra sua para continuar respirando dentro daquele veículo que nunca chegava à minha parada.
Tive ímpetos de levantar e ceder o meu lugar a ela. Eu era muito mais jovem e poderia muito bem, ficar em pé até o meu destino chegar, mas algo mais forte que eu me impedia de mover um músculo sequer... Enfim, desisti de falar e olhei novamente para o exterior do ônibus e percebi que minha parada já estava próxima. Levantei e na hora de me dirigir ao fim do veículo, senti meu corpo atravessar o dela, como se ela fosse um espírito. Seria ela humana? Ou seria ela apenas uma miragem? Assustado, esfreguei meus olhos e olhei para trás novamente e... ela já estava sentada em meu lugar.
Desci do ônibus com a sensação de ter renascido, mas ao mesmo tempo, fiquei arrependido de não ter puxado conversa com aquela senhora com quem simpatizei-me e interessei-me tanto, mas decidi esquecer aquela viagem estranha e segui caminhando rumo às minhas tarefas ali naquele local. Após tê-las cumprido, retornei à mesma parada para pegar o mesmo ônibus, só que para voltar para casa. Quando cheguei ao ponto, tive uma surpresa...
Aquela mulher que tanto me chamara a atenção também esperava um ônibus! Fiquei atônito e comecei a suar de medo. Como ela poderia estar ali, sendo que eu tinha certeza de que SÓ eu havia descido do ônibus? Afinal, por que essa mulher havia me despertado a vontade de querer conhecê-la e , afinal, o que ela estava fazendo ali naquele ponto? Como ela descera ali?... Aquilo era impossível!
Por precaução, decidi ficar a alguns metros de distância e o ônibus demorou uns 20 minutos para chegar... Esses 20 minutos foram os mais aterrorizantes da minha vida... Eu ainda não conseguira responder às perguntas do parágrafo anterior... A minha mente se resumia à terror e interrogações... E durante este tempo, nós permanecemos calados. Os únicos ruídos que ouvíramos foi o uivo dos ventos e o ronco do ônibus se aproximando.
Eu a deixei subir no ônibus primeiro, mas ela, educadamente acenou-me, para eu subir primeiro. Ao pagar o motorista, passei a catraca e acordei deste sonho - talvez o mais - estranho que já tive. Eu nunca dei importância a sonhos, nem jamais percebi quaisquer ligações deles com a realidade, mas sinto que aquela mulher tinha algum recado para me dar, que ela é real e pressinto que ainda vou encontrá-la...
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*Obra de ficção




